Minhas queridas,
Papai esta noite está com uma tarefa importante: tomar conta do sono do vovô.
Enquanto ele dorme o sono dos justo, prefiro ficar acordado caso ele se levante no meio da noite, já que eu sou muito bom de cama: deito e durmo.
O vovô é portador de Alzheimer uma doença ao mesmo tempo muito devastadora e interessante. Devastadora porque ela tem como seus principais pacientes os familiares do portador; interessante porque ela nos obriga a aceitar que o passado é algo que ficou para trás, que não pode ser revivido e neste caso, servir de experiência para acontecimentos vindouros.
O fato de estar aqui hoje com o vovô é que a vovó viajou para a Cidade Maravilhosa (sic) com a titia para conseguir um visto de viagem e como tenho tempo de sobra, enquanto os demais dormem, contarei para vocês coisas interessantes sobre o vovô.
O vovô nasceu na fazenda há muitos anos atrás e viveu por lá até os dez, doze anos. Ele e nem os irmãos dele precisaram sair de lá para virem estudar na cidade já que a mãe dele (bisavó de vocês) era professora primária. O pai dele tinha uma venda, na fazenda mesmo, que também funcionava como ponto de encontro para os moradores da região tanto para fazer escambo do que produziam como também para tomar umas cachaças no fim do dia e jogar cartas.
Mesmo assim a vida deles na roça não era moleza. Todos eles, ou seja, o vovô e os irmãos dele e mais os pais dele dormiam todos no mesmo quarto. Eles não tinha essa mordomia que as pessoas têm hoje de ter um quarto exclusivo para cada um.
Quando o vovô já estava adolescente eles mudaram para a cidade onde o pai dele montou a venda que ele tinha na roça enquanto a minha avó passou a tomar conta da casa.
Todos os irmãos do vovô e ele também, claro, estudaram até concluírem o ensino médio. Depois cada um seguiu seu caminho. O vovô se tornou engenheiro formado pela mais importante escola de engenharia do país.
Com diploma na mão trabalhou por mais de vinte anos numa única empresa. Outra atividade que o vovô adorava era a de produtor de aguardente, bebida que ele sempre apreciou muito.
A tão sonhada aposentadoria veio como um presente depois de tantos anos de trabalho e dedicação.
Infelizmente, as boas coisas que recebemos da vida nos cobra um valor muito alto para que possamos aproveita-las. Poucos dias depois que o vovô recebeu a notícia que sua aposentadoria havia saído, um telefonema de São Paulo chega para contar que um grande amigo de faculdade e de trabalho havia morrido de infarto no dia anterior. Foi algo que jamais esquecerei. Isso mexeu tanto com o vovô que ele foi parar no hospital por causa de uma dor no peito que ele começou a sentir. O médico disse que isso é normal quando ocorre um choque de emoções no paciente; no caso a alegria da aposentadoria e a dor pela perda do amigo.
Mas o pior ainda estava por vir. Com pouco mais de seis meses de aposentado o vovô foi diagnosticado como portador da Doença de Alzheimer, doença neurodegenerativa que tem como forma clássica a perda inicial da memória recente e, com o passar do tempo, de toda a memória e o acometimento das funções motoras da pessoa.
A vovó tem sofrido muito com isso. É terrível ver a pessoa com quem viveu por muitos anos acabar nesta situação. Ela tem ficado por conta dele desde que fora diagnosticado há quase dez anos. Por isso é bom que ela faça essa viagem diferente para espraiar um pouco e descançar dessa árdua tarefa de cuidar do vovô.
Por hoje é só!
Outro dia eu volto para contar mais sobre ele.
Bjs.
Papai
Nenhum comentário:
Postar um comentário